
Sabe, eu tentei. Eu juro que de todas as maneiras tentei me livrar desses delírios. Eu fugia. Tentava correr depressa para o mais longe possível porque lá no fundo, eu sabia que a queda seria grande. E, junto com ela, viria a dor. Eu sabia dos riscos, dos danos e das ruínas que ficariam. Mas, mesmo tentando correr, esses sentimentos se revelaram mais vertiginosos. É estranho, eu sei. É estranho como você sempre sabe de que jeito tudo vai acabar, mas, mesmo assim, insiste nessa tolice. Você sabe que, no fim, vai se decepcionar e se arrepender de ter acreditado em cada uma daquelas palavras. Mas você também tem consciência de que não manda nos sentimentos. Eu achei que houvesse uma fuga. Pensei que esse tal de amor fosse apenas uma ilusão, uma fraqueza criada pela mente humana. Acontece que quando os olhares se cruzam e seu coração acelera, é sinal de que você já não tem forças para lutar contra os sentimentos. E eu, que pensei que se tratava de um vírus remediável, finalmente me dei conta de que estava diante de uma pandemia. E me entreguei…
— Querino Neto (escritor-de-gaveta)

Cinza. Esta é a palavra! O dia está frio e acinzentado. Não pelo nublo que o reveste, mas pela tristeza que já se faz absoluta, provavelmente, fruto da solidão que cobre este rosto e se camufla na penumbra deste quarto. Está escuro de novo. E a chuva dolorosamente cai. Ouve-se o chiado, meio tímido. Depois, estrondos. O doce se faz amargo. Os meus olhos só enxergam o vazio. O vazio das pessoas vazias. Então, aqui estou, amparado por meus pensamentos. É um tugúrio que me acolhe, enquanto lá fora troveja. E estar diante dos meus devaneios me parece ser um extenso paraíso, embora tão vazio de cores e sorrisos… E vago por entre os mausoléus, em busca de mim mesmo. Tudo o que sei é que abrigo o tudo e o nada. Uma mistura insolúvel de todas as dores e rancores que me apetecem gritar. Se grito?! Não… Embora tenha ímpetos, não consigo. São sentimentos insensíveis, vazios e incomuns. Mesmo assim, o vazio também inspira e, enquanto me desvaneço, aos poucos, sinto esse vazio me preencher. Quando cessa a chuva, com ela se esvai toda a agonia. Mas a dor permanece, como se já habitasse dentro do meu paraíso. Meu paraíso opaco, abandonado. A aurora agora acalenta, e o vento lentamente sopra os arbustos. Nada mais se ouve, além do barulho meio arranhado das folhas secas e amareladas. E aqui versejo, como se para dissipar toda a angústia. Talvez porque escrever tenha sido a única maneira que encontrei para gritar sem fazer barulho. Uma solidão dividida comigo mesmo. Uma dor que se anula quando a outra começa a atormentar. A necessidade de gritar em silêncio é maior que o equilíbrio. Ele é tênue, fugaz. Assim, vivo a oscilar entre todos os sentires. Mas é difícil… É difícil escrever sobre emoções que não existem — ou, pelo menos, se desconhecem.
— Querino Neto (via escritor-de-gaveta)

E é assim que a defino: Olhares e sorrisos. Ingênuos, seus olhos fascinaram-me. Brilhantes como as estrelas e negros como a cálida noite, fizeram-me devanear num universo jamais explorado, embora este fosse paralelo ao meu. Refletia-se neles o céu e, como se por um encanto fosse, percebi-me estar por ele volitando. E por lá passavam livres, embora rebeldes, gaivotas a divagar por sua imensidão. Mas, logo em seguida, o cenário celestial foi substituído por um lugar terrestre, um paraíso multicolorido. Dei-me conta de já estar no sorriso… Que sorriso! Doce e amável. De quando em quando, de lá saíam palavras tímidas, que mansamente voavam aos meus ouvidos. Percebi, então, que o paraíso era afável porque a dona dos olhares e dos sorrisos também o era. Mas bastava uma lágrima cair dos seus olhos e um sussurro de desespero sair dos seus lábios para tornar o céu nublado e os lírios inodoros. Ainda assim, tudo lá era tão utópico que, por uns minutos, permaneci estático, a indagar: “Moça, és verdade, ou mero fruto de meus anseios?”. A resposta não me veio de imediato. E também, pouco importava. Tudo o que eu desejava, naquele momento, era permanecer ali, por toda a eternidade, habitando em seus olhares e em seus sorrisos.
— Querino Neto (via escritor-de-gaveta)

Nossas vestes não nos permitem voejar; nossos poderes são incapazes de gerar uma revolução; não possuímos armas poderosas para lutar nem asas longas que nos levem a um lugar distante. Ao nosso respeito, pouco sabemos. Todas as perguntas se entrelaçam na nossa cabeça, confundindo-nos cada vez mais. Somos seres imperfeitos, incapazes de conceder o perdão, de caráter egoísta. Mas, apesar disto, somos anjos. Anjos que no desmoronamento, têm ímpetos de levantar; Que no erro, têm a ânsia de aprender; Que na dor, têm esperança da luz. Nossa missão é enxergar a beleza que vai além do que podem ver os olhos ou criar a imaginação. Reconheçamos, assim, que a beleza mundana é uma mera ilusão. Se, ao percebermos nossos erros e defeitos, tentarmos mudá-los, tornaremos nossas leis cada vez mais justas, investindo num mundo altruísta para que nossos escudos unam forças e nossos seres sejam perfeitos, porque, apesar de tudo, ainda somos anjos.
— Querino Neto (via escritor-de-gaveta)

Então, o Sol se fez presente. De um só cantarolar, surgiu um Universo sem extremidades. Ora pairava a prosa, ora pairava a poesia. No fim de cada uma, o horizonte alaranjava. Manchas brancas, ternas e doces, poetizavam pela imensidão. A partir daí, surgiu o movimento. O silêncio havia sido quebrado. Da ventania à tempestade, tudo o que por eles era desconhecido amedrontava. Tomaram, então, liberdade; eternizaram, assim, egoísmo; deram forma, portanto à vaidade. Só o tempo foi capaz de mostrá-los que o grito era capaz de ser ouvido nas duas dimensões. Evoluíram, embora tenham regressado inúmeras vezes. E assim o fazem; e assim o farão. Porquanto, a estupidez é hereditária e, enquanto assim for, os olhos nunca serão capazes de enxergar que sempre — absolutamente sempre —, quando o silêncio aqui eterniza, lá fora poetiza.
— Querino Neto (via escritor-de-gaveta)
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